Prémio com vista para o Minho

A arquitectura de O Abocanhado, em Terras de Bouro, faz do restaurante o mais premiado e privilegiado miradouro.

Bem no cimo do Parque Natural da Peneda Gerês, a 800 metros da serra Amarela e junto à Barragem de Vilarinho das Furnas, o restaurante O Abocanhado surge mergulhado na paisagem da aldeia de Brufe, no concelho de Terras de Bouro.

É um dos sete projectos arquitectónicos com a “alta recomendação” da Architectural Review, uma das distinções mais importantes atribuídas pela publicação britânica em Novembro do ano passado. O projecto pertence aos arquitectos Manuel Maria Reis e António Portugal, e foi, também, premiado com a medalha de prata da terceira edição da Bienal Miami Beach 2005 – Architecture Landscape Architecture, Interior Design, nos Estados Unidos.

A arquitectura do edifício, desenhado pela dupla de arquitectos portuense, celebra a excelência “de uma fabulosa paisagem rural”, conforme justificam. Concluído em 2003, Manuel Maria Reis classifica o restaurante como “mais um socalco na paisagem”. Que não foi fácil de concretizar. Os arquitectos tiveram de “deixar tudo igual e manter a intervenção na encosta sem a destruir”. Por esse motivo, o edifício é alvo de sucessivas visitas de estudo por parte de inúmeros gabinetes arquitectónicos europeus.

A obra surge submersa num tapete verdejante abaixo do nível da estrada de acesso à pequena aldeia de Brufe. O restaurante está “abocanhado” pela paisagem, numa caixa em betão inserida num terreno desnivelado. “Uma expressão de modernidade, que privilegia a utilização dos materiais da região”, dizem Manuel Maria Reis e António Portugal.

O interior é feito em granito e vidro. A sala de jantar está decorada com mobiliário desenhado por Álvaro Siza Vieira. A antiga madeira dos caminhos-de-ferro reveste a fachada, onde uma janela de 20 metros estabelece um diálogo com uma ampla esplanada, assumindo-se como um espantoso miradouro voltado para o vale do rio Homem.

Na prática, o edifício tira partido de toda a paisagem natural. Além disso, o restaurante privilegia a mão-de-obra e os produtos locais usados para o cardápio: é o caso dos grelhados de carne barrosã, o bacalhau com migas ou o javali com arroz de carqueja. Nas sobremesas não faltam o pudim abade de priscos e o de coco com doce de ameixa. Para o proprietário, Henrique Rocha Marques, a ideia de instalar no local um restaurante pretendeu dar outra dinâmica turística à aldeia –“Porque aproveita a excelência da paisagem montanhosa”, diz. Do mesmo modo “que é também um pólo dinamizador da actividade agrícola da comunidade” acrescenta o empresário.

Dalila Monteiro
Fonte: Revista Visão 2006-01-26 | Data: 2006-01-26